Por: Jacy Afonso
Foi uma honra muito grande participar nesta sexta-feira 24 de abril em Brasília, antes da abertura do 8º Congresso Nacional do PT, do lançamento do livro “No coração do sistema: antologia de luta e resistência na greve dos bancários de 1985”. É uma coletânea organizada pela jornalista Fernanda Otero, que reúne 43 artigos de lideranças de todo o país que participaram da greve dos bancários de 1985, que entre os dias 11 e 13 de setembro daquele ano parou completamente o sistema financeiro nacional, de norte a sul do país.
Foi a maior e mais importante greve da categoria, que consolidou a unidade nacional dos bancários e foi um passo decisivo na construção da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), que garante os mesmos direitos e conquistas aos trabalhadores de todos os bancos, públicos e privados, em todo o Brasil. A CCT foi assinada pela primeira vez em 1992 com os bancos privados e a partir de 2004 também com o Banco do Brasil e com a Caixa Econômica Federal. Até hoje os bancários são a única categoria que possui uma Convenção Coletiva Nacional.
Como um dos organizadores da greve em Brasília, assino um dos artigos do livro. Nele eu avalio que, para compreender a magnitude da greve de 1985, é preciso olhar para o seu aspecto contextual mais profundo. O ano de 1979 é o marco inicial desse processo, surgindo como um desdobramento direto das históricas greves do ABC de 1978.
Vivíamos os estertores da ditadura militar, sob o governo de Figueiredo, em um cenário onde a inflação galopante corroía rapidamente os salários. Essa defasagem levava a uma luta constante; se consultarmos o mapa do Dieese daquela época, veremos que a quantidade de greves em 1979 era algo assustador, um verdadeiro vulcão social que só viria a se resolver, em parte, muito tempo depois.
Com a anistia em setembro de 1979, o Brasil vivia a efervescência da volta dos exilados, entre eles Leonel Brizola. Naquele ano, os bancários de Porto Alegre, sob a liderança de Olívio Dutra, iniciaram uma greve no dia 5 de setembro, que ganhou a adesão dos bancários de São Paulo e do Rio de Janeiro no dia 13.
Aquelas greves de 1979 foram o fruto de um cenário onde as oposições sindicais bancárias começaram a ganhar terreno. Vencemos eleições em São Paulo com o Augusto Campos, no Rio com o Ivan Pinheiro e em Fortaleza com a Maria da Natividade. De um único sindicato combativo, passamos a ter quatro nas capitais. Esse movimento forçou a ditadura, acuada pela mobilização, a apresentar a Lei 6.708 em outubro de 1979. Foi a política salarial mais importante do país, garantindo aumento real para quem ganhava até três salários mínimos.
As negociações dos bancários com os bancos ainda eram fragmentadas, sindicato por sindicato, enquanto os banqueiros já agiam com uma comissão única.
Todo ano fazíamos encontros com sindicalistas do Banco do Brasil. Aí nasceu a Executiva Nacional dos Funcionários do BB para discutir estratégias para fazer o banco cumprir as convenções coletivas. O banco aceitou, mas o Ministério da Fazenda vetou o acordo. Esse embate mexeu com as bases e foi o estopim para a greve de dezembro de 1984. Essa greve dos funcionários do BB foi uma experiência importante para a greve geral de 1985.
Nós apostávamos em um sindicalismo de massa, aceitando alianças para construir a unidade nacional. A estratégia para a Campanha Salarial de1985 foi traçada em maio durante a criação do Departamento Nacional dos Bancários (DNB) da CUT, sob a liderança de Gilmar Carneiro e consolidada em setembro, num encontro de massa em Campinas (SP), onde deliberou pela greve.
O efeito positivo da greve foi avassalador em outras categorias: os funcionários da Caixa conquistaram a jornada de seis horas e o direito de serem bancários; o mesmo ocorreu com os Correios. No Ceará o sucesso da greve gerou uma mobilização que continuou após o seu encerramento na eleição de Maria Luiza Fontenelle, a primeira prefeita de capital do PT. No congresso da CUT de 86, a presença das oposições bancárias era maciça. O resultado dessa luta foi a eleição de líderes sindicais para a Constituinte em 86, como Olívio Dutra (RS), Gushiken (SP) e Augusto Carvalho (DF).
Essa greve formou os quadros que mudariam o mapa político do Brasil: Olívio e Fortunati no Rio Grande do Sul; Paulo Bernardo e Nedson no Paraná; Gushiken, Berzoini e Davi Zaia em São Paulo; Beraldo e Álvaro na Bahia; Wellington Dias e Regina Souza no Piauí; Ana Júlia no Pará; Zeca do PT no Mato Grosso do Sul; Pimentel e Nelson Martins no Ceará; Agostinho Valente, Pompilho e Marília Campos em Minas; Augusto Carvalho, Geraldo Magela e Erika Kokay no DF, além de outros.
Entre 1979 e 1985, vivemos seis anos de semeadura; de 85 a 91, a consolidação. Em 92, conquistamos a primeira CCT nos bancos privados. Em 2004, no Governo Democrático e Popular do Presidente Lula conquistamos a Convenção Coletiva Nacional nos bancos públicos, reunificando novamente a categoria bancária em um único acordo.
Jacy Afonso foi presidente do Sindicato dos Bancários de Brasília, presidente da CUT-DF, integrante da Executiva Nacional da CUT e presidente do PT/DF. Hoje é pré-candidato a deputado distrital em Brasília.
(Publicado originalmente no portal www.revistaforum.com.br)